Ficar, verbo transitivo
Vou dar meu e-mail para quem quiser contestar: cauluspontenegra@bol.com.br, ou neste blog (em comentários), “Amar, verbo intransitivo”, novela de Mário de Andrade, escrita nos idos de muitos anos idos – primeiras décadas do século passado. Dois pontos. Todos nós, eu e vocês, leitores, somos do século passado!
É chique e é dos moços e moças, jovens dos dias de hoje, um tal “ficar”. Eu fiquei, eu vou ficar, nós ficamos, eles ficam, ficaram, enfim, ficar é o verbo mais conjugado por essa geração antigramatical. No meu tempo, que não faz tanto tempo assim, também nós costumávamos ficar. E ficávamos numa boa. Todavia, esse linguajar em seu verdadeiro sentido, ou melhor, em seu sentido que eu acho o mais verdadeiro, era sigilosa e combinadamente ocultado para que os mais velhos não nos repreendessem com a ignorância nata de cada época.
Na novela de Mário, o enredo é a relação mantida entre um pequeno riquinho e a sua governanta. O Primeiro, como todos os meninos ricos, é carente. (à guisa de esclarecimento: filho de pobre é necessitado, não carente!) Carente de afeto, carente de amor. A segunda, a governanta, estava na “casa grande” para cumprir o seu papel de governanta e educar (encaminhar) o pequeno para a vida. Porém, e este porém mesmo que se não tivesse o acento gráfico teria que ser acentuado em face de sua tonicidade e significância, eis que surge o amor em sua real essência e o verbo amar, transitivo nos léxicos brasileiros, é transgredido pela lei da natureza, codificado, sintetizado, finalizado e mortificado no código da paixão, passando-se, assim, a intransitivo.
No caso do verbo ficar, com seus diversos significados, dentre os quais permanecer que se trata de um verbo predicativo quase sempre e, raramente, intransitivo; convir que às vezes é um verbo regular, outras vezes impessoal, mas, em quaisquer circunstâncias, único e exclusivamente, transitivo e, mudando da lógica gramatical para a gramática dos jovens chiques de hoje em dia que não dão a mínima para a gramática dos gramáticos... Geração que bate um “gais”, que vive e mata a vida (numa boa!), ficar é transar com alguém, uma transa qualquer que seja, de abraços, de beijos, de estar saindo e ficando. Que me desculpem, mas esse não conseguirão mudar, ficar é: o mais transitivo de todos os verbos.
Caulus Ponte Negra
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